terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Desvio para o vermelho

Quando, numa definição filosófica de seus trabalhos, Marcel Duchamp afirmava que, entre outras coisas, seu objetivo era libertar “a Arte do domínio da mão”, certamente não imaginava a que ponto chegaríamos em 1970. O que à primeira vista podia ser facilmente localizado e efetivamente combatido tende hoje a localizar-se numa área de difícil acesso e apreensão: o cérebro.

Cildo Meireles


A instalação "Desvio para o vermelho", obra de Cildo Meirelles, coloca em questão a estrutura do espaço tridimensional monocromático. É um espaço com uma impregnação acentuada em vermelho que se torna extremamente saturada causando grande excitação sensorial. O artista cria desse modo um ambiente de simbolismo e de referências como podemos observar já no momento de entrada na instalação: a formação de um ambiente único que não remete a nenhum dos clássicos cômodos de uma casa, o ambiente não é nem um quarto, nem um escritório ou mesmo uma sala, nem mesmo uma cozinha, seria uma casa inteira? É um ambiente indefinido pois apresenta móveis e objetos mistos. Esta característica é um dos fatores que primeiramente chama atenção do observador: a quantidade de objetos presentes sem uma lógica própria como variados quadros, esculturas, móveis, roupas e tapetes. Uma máquina escrever, um laptop passando um vídeo - mostrando a mutação da casa desde sua primeira apresentação nos anos 80 - uma geladeira, um guarda-roupas cheio, mesa, elementos que estruturam um ambiente completo de um espaço familiar a todos, mas, particularmente, vermelho. Os conjuntos de objetos formam um ambiente que passa a sensação de conforto e estranheza por sua particular indefinição.


A primeira parte da instalação se chama "Entorno". Estamos dentro de algo que acontece e se estrutura em algum lugar. O que o artista pretende com isso? A formatação do ambiente cria sensação de um tom monocromático tridimensional. Essa apropriação de uma cor remete à história dos artistas que trabalham com monocromático. Podemos ver Cildo figurando entre os pintores como Yves Klein e seu azul, e Mark Rothko e suas grandes telas monocromáticas. Mas como referência direta desse monocromo vermelho, tanto quanto do seu espaço, podemos relacionar Matisse e seu quadro "Ateliê vermelho" de 1911 que antecipa os estudos da cor monocromática na contemporaneidade.

1911, Henry Matisse, Ateliê Vermelho

Cildo cria incógnitas visuais. Vemos na mesa esculturas como pequenos objetos, como um cinzeiro, cigarrilha, trabalhos de esculturas que preenchem o espaço formando um ambiente Kitsch que nos situa em uma casa de objetos familiares e de cheia referências do mundo das artes plásticas dos anos 70.

Muitos quadros na parede lembram estruturas que fazem parte dos movimentos Concreto e Neoconcreto, somado a pinturas e objetos diretamente relacionados com os movimentos de meados do século XX, como um quadro vermelho rasgado que remete ao artista italiano Lucio Fontana, ou quadros geométricos que remetem à Op Art, além de muitas referências ao Neoconcrentismo de Lygia Clarck e Helio Oiticica e seus espaços de cor que rompem com o quadro e projetam a cor para a fora da superfície, ganhando desse modo o espaço da galeria. Esta uma característica que foi adquiria na obra de Meireles.

A questão política vem acompanhada da investigação da linguagem pois o espaço de Cildo forma uma casa de lembranças. Lembranças dos tempos da Ditadura, da repressão dos anos 70, uma época que vermelho significava libertação, fúria e renovação. O vermelho é uma estrutura simbólica muito forte que aguça a percepção e é usada para distinguir vários movimentos como as Revoluções Socialistas (Revoluções Vermelhas). É também a cor do partido vermelho e também ao mesmo tempo a cor da nobreza como as roupas de veludo vermelho.



A ambigüidade da cor vermelha já era interesse de Cildo desde a primeira montagem da instalação, concluída em 1984 na ocasião da 24ª Bienal de São Paulo. Em entrevista, o artista comenta a repercussão da montagem e a associação proposta por jornalistas entre seu trabalho e a uma tragédia política da época, o assassinato do filho do governador de São Paulo. “Pode ser até que ele tenha razão, ele conseguiu perceber no meu trabalho algo que eu nem mesmo tinha percebido. Mas, para mim, o Desvio para o Vermelho é muito mais um trabalho sobre a questão cromática do que a política. Eu poderia ter escolhido outras cores, mas escolhi o vermelho porque, além de ser uma cor carregada de simbolismo, cria uma ambigüidade que interessava a esse trabalho (...)".

A obra de Cildo situa-se na transição do movimento Neoconcreto e a sua geração marcada pela influência da arte conceitual. Muitos trabalhos dialogam com a política e as questões sociais do país, vide suas intervenções em notas de dinheiro como o “Projeto Célula”- no qual o artista grava a frase "Quem matou Herzog?", dúvida que levanta sobre o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, morto em uma das prisões da ditadura – e suas intervenções “sobre o capitalismo”, nas garrafas de coca-cola, parte do “Projeto Coca-Cola”, que marcam sua interferência nas ruas, atingindo a sociedade com as "Inserções em circuitos ideológicos” de 1970.

Voltando à instalação “Desvio”, deixando a primeira parte "Entorno", vamos nos ater a segunda fase da instalação chamada “Impregnação", na qual nos deparamos com um frasco caído no chão: uma estrutura vinílica sugere o derramamento de líquido superior ao valor de volume possível dentro do frasco, essa estrutura desemboca, depois de andarmos, numa penumbra em direção a uma pia que derrama água vermelha de sua torneira. O liquido vermelho que sai pela pia entra pelo vidro ou vice-versa. Seria esta a causa disso tudo? Podemos chegar a um raciocínio no qual líquido vermelho derramado impregna o entorno da obra. Mas viria da pia ou do vidro? Cildo completa em entrevista que: “você tem uma garrafa de onde sai uma quantidade enorme de líquido vermelho, que parece ser a explicação para a sala pintada de vermelho, mas o que ela introduz é a noção de horizonte perfeito que é a superfície de qualquer líquido sem movimento. E na terceira fase tem um líquido em movimento saindo de uma torneira. A pia está inclinada, o que contradiz a relação da queda d’água, mas o líquido é vermelho, o que nos conduz à primeira sala. (...) Enfim a idéia era criar uma circularidade onde uma coisa fosse jogando para outra, uma fase jogasse para outra, mas não explicasse nada.”

Muitos críticos e estudiosos de arte consideram Cildo Meireles como um artista de ponta e peculiar por sua resistência em ser um dos primeiros a trabalhar com arte de vanguarda experimental no Brasil que além de tratar de questões sobre os problemas gerais da estética e do objeto artístico apresentando trabalhos em múltiplas linguagens como escultura, desenho, pintura, ambiente, happening, instalação, performance, fotografia mescla referências de cunho social e político.

1 comentários:

joapa disse...

amo essa instalaçao!!