sexta-feira, 9 de outubro de 2009

OBJETO IMAGINÁRIO - Análise da parede-painel, peça base, presente no Ateliê do artísta plástico Tiago Macedo

1 de outubro de 2009. Estou no Ateliê de Tiago Macedo escolhendo algumas obras para expor em Porto Alegre em uma mostra paralela a Bienal Mercosul. Conheci este espaço no mesmo período em que conheci o artísta, conhecidência que impediu, de certa forma, que eu conseguisse atingir um distanciamento entre estes dois sujeitos: aquele representado e sua representação material, estética e humana. Criou uma junção entre os corpos.

À esquerda da porta de entrada se encontra um grande painel pintado. Sua função no ateliê poderia ser definida enquanto cavalete, haja visto que nele são penduradas as telas em execução. Mas se tratando deste espaço, esta avaliação pode pormenorizar, em um segundo olhar, mais intuitivo, a imensa experimentação, proposta por ele, do universo que, por vezes, reaparece nas obras de Macedo. São vestígios de diversos momentos, pinceladas, idéias. Resíduos do que um dia foi tocar a tela. Outros não.
Apesar da formação e do argumento teórico acadêmico, a primeira referência forte que encontro no painel, localizado na parede do Ateliê, é urbana. Traço que não impede a existência de contra-pontos estéticos e sensíveis. Por se tratar de uma parede, contexto que impede o retorno a tela branca se não pela transmutação do espaço, a superfície, a face exterior do painel dialoga o atual e sua capacidade de completar-pertencer ao que fica no fundo, na base. Intervenções sobre a própria arte, como no grafite que se completa um sobre o outro. Técnica mista. A presença técnicas de arte urbana evocam os mais variados signos do cotidiano co-habitando equilibradamente com pinceladas à óleo.

Um tanto caótico, alguns poderiam dizer. Concordo em partes. A mim parece mais uma representação do processo artístico, do que efeito do comportamento do artísta. Pude acompanhar alguns processos de concepção de telas e, talvez, por isso não concorde com a terminologia caótico. Obsessivo soa melhor. Nada é caótico no processo de Tiago Macedo. Trata-se de uma obsessão pela experiência. A saída não está no caos, ao contrário, ele peça, objeto, símbolo, representação, parte de uma estética ampliada que permite formular, mesmo que em tentativa, um possível universo imaginário do artísta.

As araras foram um destes momentos em que estive à presença do artísta diante de sua representatividade. Tiago acabara de voltar de uma viagem ao Estado de Goias, onde ministrou uma oficina de Pintura Urbana em um Projeto do Governo Federal, intitulado Projeto Rondon. Quando o encontrei no Ateliê, havia na parede-painel duas araras vermelhas, animais característicos da fauna brasileira encontrados na Floresta Amazônica e no Pantanal Matogrossense. Uma paleta árida composta de inúmeros tons de vermelho, laranja, um tanto de azul e poucos tons de verde, bem pontuais, próximos aos olhos e pescoços das aves. Este primeiro olhar levantou a hipótese de estarem soltas. Por hora eram apenas vestígios da memória trazidos do meio-oeste brasileiro. Sentia que a prióri não pertenciam, de fato, à parede. Instantes depois Tiago foi até a estante de materiais e experimentou alguns tons de cinza. Com eles foi pintado, abaixo das patas das araras, uma estrutura de um poleiro. Desta menira o artísta traz para o contexto urbanizante de um apartamento o semi-árido. Iseriu-as na concretude estética e cotidiana da parede.

Ao lado estão impressas a figura de um homem gordo de terno. Eles parecem dar as costas, neganbdo a força da representação das araras. Eles possuem, em proporção as aves, uma dimensão menor. Feitos por Stencils, técnica urbana de impressão através de moldes vasados e grafite, conotam o universo urbano. Para mim, presença obrigatória na obra de Macedo.

Não cometerei o equívoco de buscar nestes vestígios, parcialmente cobertos por outros mais recentes, uma formulação lógica quanto ao tempo em que foram concebidos. Ainda sim posso dizer que o fundo tem predominantemente o ton verde.

Outros vestígios remontam a outras telas, como outra imprensão que surge no painel sob a forma de dois pássaros sobre um galho. Quando ví esta tela pela primeira vez encontrei dificuldades em digerí-la. Era uma tela inocente, não na expressividade e na carga interpretativa, mas na distância que me provocava. Parecia um objeto crú, porém ainda não era viceral o sificiente. Tinha um traço suave e tons sóbrios e mornos. Em um espaço de dois dias apareceriam na tela uma intervenção urbanizante: outra vez com o suporte da técnica de Stencils, foi impresso na mesma figuras com tons fechados de verde e preto.

Proponho agora alguns questionamentos a respeito da obra: O que pode significar estas interpretações? Em uma análise positiva poderia dizer que significam nada. Ingênoa como pude perceber. Parece mais uma representação dialética e dialógica entre: o artísta, sua vida cotidiana e o espaço em constante re-urbanização. Como a memória, as sobreposições operam de maneira semelhante às associações cognitivas do cérebro humano.

Não é corriqueiro que se chegue a esta conclusão sobre o painel. É necessário conhecer, neste caso específico, o interlocutor da obra para conseguir perceber as relações estabelecidas na mesma entre o sujeito, seu contexto e memória e a cidade. No painel não habitam representações literais, frutos de observação e pose. São organismo da memória.

Hoje, quando entrei no Ateliê, fui recebido por Tiago com uma questão. Dizia ele que diante de uma obra de arte, não se deveria buscar o entendimento sobre o que ou quem estão representados, e sim o espaço que se pretende representar. Que ambiente nos encontramos inseridos? Qual ligação surge entre este que é observado e observante? A quem se destina?

Buscos nestas reflexões uma análise sobre que motivos levarão o artísta à se valer de uma representação memorial e imagética do seu prórpio processo. A possível resposta não está presente na tese do auto-conhecimento, pois desta menria perderíamos o fantástico arranjo aleatório da obra, fator pouco provável se adotarmos a idéia de uma prática terapêutica. Antes do conhecimento puro enxergo a experiência, desenvolvida sobre um registro memorial e urbano de um sujeito intimamente ligado ao seu contexto. Talvez assim, explique a densidade do material encontrado e dos temas abordados, entregues ao observador de maneira fragmentada. Vestígios. Apesar de convidá-o a uma experiência, um tanto, narrativa, a mesma se dá de uma maneira solta. Involuntariamente disperça e ambígua.

Observado de perto, o painel, encontro na parede símbolos que reforçam, ainda mais, o caráter de objeto imaginário e urbano da obra. Escritos es rabiscos, memórias da rotina do artísta. Se considerarmos que o Ateliê é a moradia, e portanto, a célula urbana do artísta, os referenciais urbanos se reforçam ainda mais. Habitar sua prórpia forma representativa explica a viceralidadea econtrada com tanta frequência no Atleliê- obras de Tiago Macedo. Vestígios de sua memória fragmentada sobrepostos, como forma de experenciar e aprimorar as relações entre os espaços.

Chego a hipótese, mesmo que tola, da possibilidade de ser encontrado um ponto a quem se destina toda a gama de representações: O ESPAÇO. É o contexto espacial que traz a solução perceptiva. Soltas as imagens não consiguiriam o que as sobreposições possibilitam: aproximar o sujeito do espaço. Imerso em uma catárze sensorial e memorial. Relações íntimas. Permite acompanhar a maturidade do artísta. Arte viva, orgânica.

Arrisco prever que o desfecho da matéria representativa do painel seja o retorno a parede "limpa". Não em um ato de negação, ao contrário, outra sobreposição forçando e concluindo um reposicionamento urbano. A memória não pertence ao objeto. Diferentemente de uma tela, no painel, a conclusão da idéia não findará com a limitação momentânea de espaço. Ela será re-alocada, re-urbanizada. Traço forte da prática memorial do cérebro, que trabalha de maneira constante, transitória e imaginária.

Não se trata de transportar a obra e sim sua carga representativa, possível, somente, na presença de seu interlocutor: o espaço memorial do artísta.

O reposicionamento urbano do Ateliê, que se dará com a mudança de moradia do artísta; quando a parede retorna ao corpo estético da cidade adquirindo outra função estrutural; Tiago habita as cidades, e dialoga com elas com equilíbrio ao ponto de, ao pintar a parede de branco, sobrepor outra relação. O que há por baixo do ascéptico branco mantém o diálogo entre a cidade, o artísta e a memória. A memória não limata-se ao sujeito, seus vestígios serão sobrepostos por outros, interligando a experiência vivenciada. Rearranjando seu espaço segundo uma lógica espontânea e fragmentada. Uma espécie de objeto imaginário.


Felipe Mussel

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